sexta-feira, 9 de abril de 2010

A RESPONSABILIDADE DA IMPRENSA

O JORNALISMO, A CRÍTICA E O BOM SENSO

A liberdade de imprensa é um bem tão precioso para uma sociedade e tão necessário à democracia, que sem ela sucumbem os dois: a sociedade e a democracia. A primeira porque inevitavelmente perderia a essência da contradição, o senso crítico e o conseqüente confronto das idéias, que impulsionam as “catapultas” da ampliação dos limites. A segunda – a democracia – por razões óbvias, uma imprensa independente, com total liberdade para informar, fiscalizar e criticar, é condição básica para que todos tenham vez e voz e para que se construa uma sociedade cada vez mais participativa, plural e democrática.

Diante dessas premissas, devemos dizer que o Poder Público tem que conviver com o “olho” crítico e fiscalizatório da imprensa. Não tem como fugir dessa que é que uma exigência da sociedade. Mal ou bem a imprensa é livre e tem que ser cada vez mais livre para informar e opinar. Jornal único e imprensa controlada são coisas típicas de regimes totalitários, nos quais uma cúpula de ungidos (por quem, ou qual divindade, nunca se sabe) determina aquilo que a sociedade pode ou não pode ler ou assistir. Aos autoritários de plantão, devemos dizer que para “corrigir” a liberdade de imprensa, só mais liberdade ainda.

Uma boa parte das pessoas tem o péssimo hábito de gostar (e muito) apenas da imprensa que é a favor, daquela que só fala bem. Não é o caso. A imprensa deve sim ser encarada, na real, como uma força auxiliar, da qual deve se extrair aquilo que ressoa da sociedade, principalmente quando a ressonância vem recheada da crítica. Por outro lado, devemos também cobrar da imprensa a imparcialidade, a correção na apuração dos fatos que pretende divulgar e o senso de responsabilidade.

Deve-se manter distância da adjetivação fácil e muitas vezes corrosiva e da irresponsabilidade da crítica sem fundamento. Temos notado que cresce assustadoramente a vocação para “magistrados” e de “tribunal de justiça” de determinados jornalistas e de determinados veículos de imprensa. Eles se arvoram em julgar e condenar uma pessoa, uma entidade ou instituição, sem ao menos oferecer a possibilidade de defesa ou sem ao menos ouvir uma das partes em questão. E isso é péssimo, já que a própria imprensa cai no descrédito e na antropofagia uma vez que nega ao “condenado” aquilo que defende como prerrogativa, que é o direito ao contraditório.

Evidencia-se também na imprensa, notadamente nos últimos anos, uma certa queda pelo catastrofismo. Só interessa aos veículos aquilo que é ruim, aquilo que é denúncia, aquilo que é negativo. Dá a entender que a sociedade só quer mesmo saber de catástrofes e que os jornalistas devem sair da redação já com o intuito de buscar o que tem de negativo naquele ato que vai cobrir, naquela informação que vai apurar ou naquela entrevista que vai fazer. Todos teem que garantir a manchete com o destaque negativo do fato. Sem isso, não se vende jornal ou não se tem audiência. Afinal, só notícia ruim é que vende. Não é bem assim.

Acredito que nós jornalistas não deveríamos ter preconceito em noticiar fatos positivos e que poderíamos refletir bem mais sobre a nossa real contribuição para com a sociedade. Será que fatos positivos também não despertariam a atenção dos leitores? Não seria o caso de criarmos uma nova cultura, na qual o catastrofismo desse lugar a bom senso e na qual pudéssemos apurar os fatos sem a necessidade de imputar sempre um viés negativo, mesmo que não tenha? Lógico, isso não eliminaria a crítica, a contestação e nem a independência dos jornalistas e muito menos dos veículos de comunicação. Tudo isso são fundamentos que temos que preservar e lutar cada vez mais para que sejam sempre assegurados, muito mais pelo bem da sociedade que dos próprios jornalistas.

Nesta quarta-feira, 7 de abril, estamos comemorando o Dia do Jornalista. E nada melhor que aproveitarmos a data para o exercício da reflexão e para nos convencer cada vez mais da importância que nos hipoteca a sociedade e da responsabilidade que essa condição exige de todos os profissionais da comunicação. Vamos deixar o julgamento e a condenação de pessoas ou instituições para o Poder competente. O exercício da crítica é salutar, quando acompanhado do bom senso.

* André Curvello é jornalista de formação e atual secretário municipal de Comunicação de Salvador. Também já foi responsável por diversas campanhas políticas no estado e passou por todos os segmentos da imprensa.

André Curvello




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